sexta-feira, 4 de novembro de 2016

História do Halloween



Todos os anos, na noite do dia 31 de outubro, desde meados do século XIX, é comemorado nos Estados Unidos a festa intitulada “Halloween”, que em virtude da globalização e seus bens culturais envolvidos (cinema, TV, música, jogos, quadrinhos, internet e afins), fica cada vez mais popularizada pelo mundo. Objeto de debates, críticas e até discursos religiosos inflamados, elementos simbólicos desta festa vêm sendo adotados em várias partes do mundo num processo perfeitamente normal de assimilação e ressignificação cultural, algo que sequer é recente, pois a própria festa norte-americana é um exemplo disso. Esse texto, sem qualquer rigor acadêmico, é uma tentativa de compilar um pouco dos complexos e ricos elementos culturais e históricos que compõem o que podemos chamar de “História do Halloween”.

Uma primeira pista seria entender a origem da expressão “Halloween”. Mas o que pode parecer um bom – e simples - começo, na verdade explica apenas um momento da atual nomeação dessa celebração e não a sua real origem.

A maioria dos estudiosos em etimologia acreditam que “Halloween” seja uma abreviação da expressão escocesa "Hallow-e'en" (posteriormente All Hallows' Eve) datada do século XVI. Em língua inglesa, essa contração significa literalmente “Véspera de Todos os Santos” ("Hallowed" em Inglês arcaico significa "santo", "e'en" ou “even” significam "noite anterior" ou simplesmente, “véspera”). O primeiro registro do termo "Halloween" é de cerca de 1724[1], o que demonstra que o nome atual da festa tem origem cristã, pois o “Dia de Todos os Santos” faz parte do calendário litúrgico católico. Contudo, sabe-se que as celebrações que originaram essa festa junto aos povos de língua inglesa são bem anteriores ao cristianismo, sendo sua origem encontrada nas Ilhas Britânicas em cerca do século VII a.C, com os Celtas e Bretões.

Mas como uma celebração de origem pagã tem ligações tão próximas com uma data de origem cristã? Para entender essa junção é necessário saber os conceitos de sincretismo e assimilação cultural.

Sincretismo é a assimilação de diversos elementos de sistemas de doutrinas diferentes para a geração de novos significados, sejam de caráter filosófico, cultural ou religioso. Esse processo pode ser natural, mas também pode ser feito através de relações de forças, onde uma doutrina pode se apropriar deliberadamente de outra para que ao final a primeira saia fortalecida e a outra seja superada ou até mesmo abandonada. No caso da religião, isso aconteceu de maneira bastante intensa na Europa Medieval, quando a Igreja Católica, em processo de cristianização do continente, absorveu e adaptou elementos de diversas religiões pagãs, moldando-as afim de facilitar e acelerar o processo de catequização desses povos. Praticamente todas as grandes datas do calendário cristão apresentam-se como exemplos de sincretismo e assimilação cultural. Do Natal à Pascoa, passando pelas Festas Juninas e Julinas, o Halloween também é uma delas.



A Origem Pagã

Os Celtas tinham um calendário (Roda do Ano) dividido em 8 “Sabbaths”, comemorados em festivais periódicos tendo como referência os solstícios e equinócios. Destes, o Samhain marca o Ano Novo Celta, o que na prática significa dizer que é o final do período de colheita e o início do inverno (“darker half” – a metade escura, pois o calendário celta só designava duas estações do ano: verão e inverno). Samhain significa literalmente “fim do verão”. O seu oposto, Beltane, significa em gaélico “fogo ardente”, que para os celtas marca o início do verão.

O Samhain é um tipo de festival agrário bastante comum em culturas primitivas. Por marcar o final da colheita, indica o início de um período de pouca comida, pois com o inverno que se avizinha, a produtividade despenca e até a caça de animais e a coleta de frutos ficam escassas. É um período em que os povos primitivos deveriam se preparar ao estocar comida, recolher seus rebanhos em estábulos e buscar abrigo contra a severidade do clima e até mesmo de saques daqueles que não se prepararam para o mesmo.


 Grupos de preservação histórica e folclórica nas ilhas britânicas atualmente tentam resgatar parte do legado celta através de eventos que buscar reencenar as celebrações do Samhain original.

Comum também em religiões politeístas primitivas, era a associação dos mortos e dos espíritos com a proteção das comunidades. Aquelas que tratavam ou sabiam se relacionar com as almas dos falecidos seriam protegidas e guiadas por eles. Mas os povos que negligenciarem os espíritos que ainda vagavam pelo mundo terreno, sofreriam as consequências. Por isso era natural que em momentos de passagens de um período de fartura para um de carência de víveres, os espíritos fossem envolvidos nas celebrações, ou para agrada-los ou para afasta-los. A utilização de totens, máscaras, carrancas, talismãs e amuletos bizarros para afastar maus espíritos são encontrados em diversas culturas. Os celtas usavam máscaras assustadoras (feitas de galhos, folhas e peles de animais) e lanternas – feitas de nabos – para afastar maus espíritos, enquanto faziam oferendas de alimentos para as almas errantes de seus parentes mortos, para lhes dar um pouco de paz. A utilização de imensas fogueiras (as “hallowe’en fires” os “fogos de hallowe’en”) no alto de colinas e morros, para guiar e ou afastar espíritos e se comunicar com os Deuses pagãos, geralmente feitas por sacerdotes druidas, também eram especialmente utilizadas durante o Samhain.


 Lanternas irlandesas para o Halloween feitas de nabo, datadas do começo do século XIX.
Quando a tradição chegou aos EUA com os imigrantes, os nabos deram lugar às abóboras.


Outra característica comum na maioria das religiões pagãs era a capacidade de adivinhar e prever situações. Na cena do Samhain Celta, também chamado de “Dia dos Mortos” pelos Bretões, a presença de espíritos facilitaria todo o processo de adivinhações, pois os dois mundos, o espiritual e o terreno, estavam mais unidos do que nunca. Os irlandeses e escoceses ainda mantém o hábito de comer pães chamados “barmbracks” no Samhain, cujo interior é preenchido com objetos, nozes ou frutas secas, que indicariam a destino da pessoa, uma espécie de "biscoito da sorte". Atualmente, em alguns locais do Norte da Grã-Bretanha, o Halloween é conhecido por a “Noite de Quebrar a Noz” (Nut Crack Night)[2].


 O "Barmbrack" irlandês é um dos símbolos principais do Halloween naquele país. Geralmente recheado com objetos afim de prever a sorte das pessoas. No caso aqui exemplificado, a pessoa que pegar um pedaço com o anel irá se casar no ano seguinte.


Com a invasão Romana na Grã-Bretanha no século I a.C, a religião druida passou a ser combatida enquanto a religião do conquistador introduzia e assimilava novos elementos culturais. Um exemplo foi a assimilação da Festa em homenagem à Deusa Romana Pomona[3] e o Festival da Feralia no Samhain do povo dominado.

Pomona, Deusa das árvores e jardins frutíferos, tinha sua comemoração tradicionalmente realizada em meados de agosto do calendário juliano, dentro das festividades maiores da Consuália, que em Roma fechava o período da colheita. Essa Deusa, cujo símbolo era uma maçã, em terras britânicas, passou a ser festejada no fim do verão, ou seja, no Samhain, por esse ser o final da colheita daquela região. O chamado “Apple bobbing”, tradicional competição que consiste em pegar maçãs de uma bacia cheia d’água usando somente a boca feita durante o Halloween, talvez seja uma herança dessa união. Em alguns lugares, como o Canadá, a expressão “Snap-Apple night” é sinônimo de Halloween. Já a Feralia, festa romana em homenagem aos mortos que era festejada tradicionalmente em 21 de fevereiro do calendário juliano, acredita-se que passaria a ser comemorada junto com o Samhain em terras britânicas.


Um dos jogos mais tradicionais do Halloween é o "apple bobbing", cuja origem, segundo alguns estudiosos, estaria nas festas romanas à Deusa pagã Pomona, adaptadas ao Samhain durante a dominação de Roma na antiga província da Bretanha, atual Inglaterra e País de Gales.



A Assimilação Cristã

Apesar do avanço do cristianismo nos primeiros séculos da Era Cristã na Europa, as religiões pagãs ainda perduraram, em especial na Grã-Bretanha. Mesmo com a retirada dos romanos no início do século V d.C., a religião druida ainda resistia e o Samhain continuava a ser comemorado, com suas fogueiras, máscaras, oferendas de comida e suas lanternas de nabos, sobretudo em regiões como Irlanda, País de Gales e Sul da Inglaterra, próximas a Cornuália. Mas o avanço da Igreja Católica continuou e iniciou o processo de assimilação da festa da colheita e dos mortos pagãos em suas festas cristãs.

Homenagear os mortos é algo comum em praticamente todas as religiões, como o judaísmo, e não seria diferente com o cristianismo, pois encontram-se ecos dessa prática desde o catolicismo primitivo, o que pode ser comprovado por inscrições nas catacumbas romanas[4]. No início do século VII d.C., o Papa Bonifácio IV converteu o Panteon, antigo templo Romano em homenagem aos Deuses de Roma, em uma Igreja em homenagem à “Santa Maria” e aos “Santos Mártires”. A data, 13 de maio de 609 d.C., passou a ser aquela onde se comemorava os mártires da Igreja Católica e os mortos esquecidos. Contudo, nas regiões da Grã-Bretanha, as festividades em homenagem aos mortos continuavam sendo celebradas nas datas do Samhain, que adaptado ao calendário cristão, era comemorado entre os dias 31 de outubro e 1 de novembro.

Com o objetivo de que a festa pagã fosse suprimida e recebesse um novo significado cristão, o Papa Gregório III (731-741), mudou a data de comemoração dos “santos mártires” para 1 de novembro, ao dedicar uma capela na Basílica de São Pedro para "todos os santos". Desde então, a Igreja celebra a solenidade litúrgica conhecida como Dia de Todos os Santos neste dia, espalhando-se progressivamente no Império de Carlos Magno, até que o Festum Omnium Sanctorum se tornou obrigatório no Reino dos Francos durante o Reinado de Luís, o Pio e do Papado de Gregório IV (790-844) em 834. Com a fixação do “Dia de Todos os Santos”, a vigília dessa comemoração, ou seja, o dia 31 de outubro, passou a ser chamado de “Véspera de Todos os Santos”, o que no inglês antigo, conforme já dito anteriormente, é “All Hallows' Eve”, que posteriormente deu origem a expressão “Halloween”.

 O Para Gregorio III foi o responsável por fazer com que a vigília para o "Dia de Todos os Santos" coincidisse com o Samhain. O objetivo era associar a festa pagã com a festa cristã e assim facilitar o processo de catequização do cristianismo e gradativo abandono da antiga religião.


No século IX, em algumas regiões da Europa cristã, principalmente nas áreas de língua inglesa, era comum no “Dia de Todos os Santos” as famílias colocarem bolos doces ou pequenos pães nas portas das casas em oferenda aos membros das congregações cristãs que, munidos de lanternas com velas representando almas presas no purgatório, orassem para os defuntos destas famílias. Eram os chamados “soul cakes” (bolos da alma). Essa prática de deixar alimentos para que fossem feitas orações para os mortos aos poucos foi sendo transformada e crianças e mendigos também passaram a oferecer tais orações a troca dos bolinhos doces. Essa tradição recebeu o nome de Souling. Em Portugal, a partir de 1 de novembro de 1756, de forma espontânea, sob os efeitos da fome provocada em consequência do famoso terremoto em Lisboa que havia destruído a cidade no ano anterior, nasce a prática que consistia em fazer uma esmola de pão, por alma dos mortos de cada família. Durante esse “Peditório” ritual, as crianças saíam à rua em grupos para pedir o “Pão-por-Deus” de porta em porta, recitando versos e recebiam como oferenda pães, bolos, romãs e frutos secos. Em algumas aldeias chama-se a este dia o “Dia dos Bolinhos”. Muitos estudiosos acreditam que a origem do “trick or treat” (doces ou travessuras) das atuais festas de Halloween tenham sua origem nos Soulings e que o Pão-de-Deus de Portugal seria uma de suas primeiras ressignificações.


 O "Pão-por-Deus", tradição portuguesa comemorada no dia 1 de novembro, é considerada uma ressignificação do Souling, parte das práticas relacionadas ao Samhain medieval. Fotohttp://eb1saopaulo.blogspot.com.br/2013/11/dia-do-pao-por-deus.html 



Enquanto o Samhain ainda era celebrado de maneira velada pelos nãos cristãos nas regiões de língua inglesa, durante o primeiro milênio de cristianismo europeu não havia uma institucionalização para as celebrações em homenagens aos mortos. Encontram-se alguns registros do século VII d.C. de celebrações em honra aos mortos em abadias beneditinas francesas e espanholas uma semana posterior ao Pentecostes. Nos finais do século X e início do século XI, o Abade beneditino Odilon de Cluny, França, (posteriormente Santo Odilon), determinou, em 998, que todos os mosteiros de sua ordem fizessem orações em nome dos “mortos esquecidos” e das “almas do purgatório” no dia 2 de novembro, um dia após do “Dia de Todos os Santos”. Algumas fontes dizem que tal prática nos mosteiros beneditinos só foi totalmente efetivada entre 1024 e 1033[5]. De qualquer forma, a data do “Dia dos Mortos” ou “Dia dos Fiéis Defuntos” (Commemoratio omnium Fidelium Defunctorum) só seria oficializada pela Igreja Católica no século XIII.  As três datas, o dia 31 de outubro (Véspera do Dia de Todos os Santos), o dia 1 de novembro (Dia de Todos os Santos) e o dia 2 de novembro (Dia dos Finados) forma o chamado "Allhallowtide", termo criado em 1471 para designar as Festas dos Mártires, dos Santos e das Almas.


O Souling foi uma prática de origem medieval que consistia em oferecer bolinhos à crianças e mendigos para que estes rezassem para as almas dos mortos das famílias no Dia de Todos os Santos, coincidindo com as comemorações do Halloween. Com a criação do Dia dos Finados, a prática se entendeu pelos três dias do "Allhallowtide".



O Halloween nos Estados Unidos

Na segunda metade do século XIX, os Estados Unidos receberam uma enorme onda de imigrantes irlandeses que fugiram da “Grande Fome” ou “Fome das Batatas” (1845-1849). Acredita-se que foi a chegada dessa leva de imigrantes que introduziu a celebração do Halloween em terras norte-americanas, que passou a ser comemorada por todas as famílias e não apenas pelas recém chegadas.

O Halloween na virada do século XIX para o XX eram uma festa de caráter familiar, onde adultos e crianças confeccionavam suas próprias fantasias (clique para ampliar). Na maioria das vezes, o resultado era muito mais assustador e perturbador do que as futuras fantasias fabricadas e vendidas em lojas de departamento nas década seguintes.


A região da Costa Leste, já bastante rica em folclore sobrenatural em virtude da colonização puritana e o histórico de “caça às Bruxas” dos séculos anteriores e também contando com uma tradição literária romântica e gótica já bastante desenvolvida (com célebres nomes como Washington Irving, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville e Edgar Alan Poe), ofereceu terreno fértil para as máscaras fantasmagóricas e lanternas das celebrações do Halloween cristão irlandês, que se manteve relativamente vivo mesmo com a repressão católica e protestante por toda a Idade Média e Moderna. Foi só nesse momento, a partir de meados do século XIX, que os espíritos de caráter familiar e os nabos deram espaço para as bruxas, demônios, caveiras e abóboras passaram a fazer parte do Halloween.


A inserção de elementos folclóricos e históricos da Costa Leste dos EUA, somada à forte
literatura gótica presente na região, foi a responsável pela entrada de Bruxas e criaturas sobrenaturais nas comemorações do Halloween.


É nesse contexto que se populariza um dos símbolos mais conhecidos do Halloween, a lanterna com feições humanas fantasmagóricas que, sendo feita agora nos EUA, passa a ser confeccionada com abóboras ao invés de nabos. Esse personagem é tradicionalmente conhecido com o “Jack-O’-Lantern”. A origem do nome vem de uma lenda irlandesa do século XVII, provavelmente na década de 1660, que é quando o termo é registrado pela primeira vez[6]. Há algumas versões da mesma lenda, mas todas contam a história de Stingy Jack, um notório bêbado e malandro que vivia aplicando golpes nos outros, sendo que uma das vítimas de suas peças foi o próprio Diabo. Após sua morte, sendo recusado tanto no Céu quanto no Inferno, Jack recebeu do Diabo uma lanterna feita de nabo para iluminar os caminhos que sua alma penada deveria vagar pelo mundo, passando a ser conhecido como o ”Jack da Lanterna”.


Na versão original da lenda, Stingy Jack teria recebido do Diabo uma lanterna de nabo para guiar seus caminhos pelo mundo após sua morte. Nos EUA a lenda foi inserida na cena do Halloween, transformando a própria lanterna, desta vez feita de abóbora, no personagem Jack O' Lantern.


Outro fator de popularidade para a cultura do Halloween na segunda metade do século XIX, além do crescimento da literatura gótica, sobretudo nos países de língua inglesa, foi o aparecimento dos chamados “Penny Dreadful”. Publicações de baixa qualidade material e literária, comprados a preços muito baixos (um “penny”) nas ruas, com a temática de terror, mistério e o sobrenatural.

Com o século XX, algumas das tradições associadas ao Halloween perderam significado, e a festividade sofreu algumas tentativas de “amenizar” suas práticas com o resgate de brincadeiras envolvendo jogos de adivinhações entre familiares, amigos e casais. Em algum momento, a festa chegava a ter ares românticos[7]. Jogos como o Snap-Apple (morder uma maça presa a um barbante), o Apple bobbing e os ”bolinhos de nozes” que previam casamentos (ambos já citados no texto) eram tão populares quanto as lanternas e máscaras assustadoras.

O Halloween nos EUA, herdando tradições celtas e romanas, também é marcado por brincadeiras e jogos de adivinhações e previsões do futuro (clique para ampliar), o que é perfeitamente natural em situações comemorativas que fazem referência ao sobrenatural.


A festa continuou a crescer e nas primeiras décadas do século XX, mesmo sofrendo a repressão de algumas cidades como Los Angeles e Chicago por conta do vandalismo da noite de “travessuras” e excessos (sem a presença de crianças). Uma verdadeira indústria foi criada em torno do Halloween[8]. O capitalismo estava em franca expansão e os EUA entravam no entreguerras como a maior potência industrial do mundo e com uma crescente classe média urbana ávida por consumo e diversão. Empresas passaram a produzir doces, fantasias, cartões postais e decoração voltadas para o Halloween em massa, sendo disponíveis nas imensas lojas de departamentos das grandes cidades americanas. O que até então eram festas familiares e com artigos improvisados, passa a ser um colossal negócio com altas taxas de lucratividade.



Segundo o historiador Eric Hobsbawn, o capitalismo gera a sua própria demanda. A popularização do Halloween está diretamente ligada ao desenvolvimento de um imenso empreendimento comercial. Fabricantes e lojistas nos EUA passaram a oferecer fantasias, decoração e "kits" para o Halloween, popularizando ainda mais  festa na crescente sociedade de consumo.  


O crescimento da indústria de comunicação em massa com o cinema, rádio e publicações impressas, transformaram a estética do Halloween e seus personagens em um negócio bastante lucrativo. Mais uma vez, publicações baratas de terror e mistério, agora conhecidas nos EUA como Pulps, como a “Weird Tales” (1923) e a “Horror Stories” (1935), popularizaram-se nas décadas de 20 e 30, formando uma geração de leitores admiradores dessas criaturas horrendas e ao mesmo tempo carismáticas. O célebre episódio de Orson Wells lendo trechos do livro “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells pelo rádio no dia 30 de outubro de 1938, o que gerou pânico e distúrbios por toda costa oeste, foi justificado como sendo uma “pegadinha” de Halloween[9].

O cinema e a TV norte-americana, seguindo uma vertente temática iniciada pelo expressionismo alemão, popularizou personagens literários clássicos e folclóricos em suas produções, como vampiros, a criatura de Frankenstein, lobisomens, zumbis e afins. Era questão de tempo que esses personagens fossem usados nas decorações e fantasias de Halloween.

Mais tarde, nos anos 60, revistas quadrinhos como a “Creepy” (1954) e programas de TV como a “Família Adams” (inspirado numa tirinha diária em jornais publicada desde 1938) ajudaram ainda mais popularizar a “estética de Halloween” junto ao público infantil.

A tradição de crianças fantasiadas pelas ruas batendo de porta em porta pedindo doces é mais recente do que se pensa. Não há registros dessa prática antes da década de 30 e só a partir da década de 50, o “Trick-or-Treat” passa a ser realmente parte do Halloween quando uma campanha de caridade organizada pela UNICEF (Trick-or-Treat for UNICEF) para angariar donativos, acompanhada de artigos em jornais e revistas e programas de rádio, o popularizam junto a classe média norte-americana em seus subúrbios abastados da geração do pós-guerra. Com o fim da campanha filantrópica, a prática continuou, mas o dinheiro foi substituído por doces.[10]





A popularização mundial do Halloween

Atualmente, os feriados e festivais nacionais raramente fazem referência à elementos agrários como colheitas e plantios, mas os países cristãos continuam a render feriados relativos aos mortos e aos santos. No Brasil e em outros países católicos, o “Dia de Finados”, em 2 de novembro, é um feriado marcado pela constrição e reflexão para com os entes queridos falecidos. No México e na América Central, o “Día de Muertos”, celebrado atualmente entre o dia 1 e 2 de novembro, é uma festa popular de rua com origens nas antigas civilizações mesoamericanas e é marcada pela alegria e pela presença de desfiles de bonecos e carros alegóricos em formas de caveira, além de muita comida e bebida.

Com o desenvolvimento da cultura de massas com os meios de comunicação e de bens culturais de consumo intenso como TV, cinema, desenhos animados, quadrinhos, vídeo games, jogos de tabuleiro e música, a temática do Halloween, que a despeito de ser “assustadora”, transformou-se numa festa social, que envolveria todas as idades e em diversos países, mesmo aqueles de não língua inglesa.   Foi uma questão de tempo que o próprio processo de globalização a transformasse em referência cultural com status de “Cultura POP”.

Cinema, quadrinhos, TV, jogos, literatura, música e afins (clique para ampliar). Tal como aconteceu com Natal e a Páscoa em escala global, o Halloween foi sendo transformado em fenômeno multimídia para o consumo de massas, sendo que atualmente não apresenta praticamente nenhum significado religioso, como ainda acontece com os outros feriados.

Até países de língua inglesa sofreram essa “invasão americana”, dentre eles a própria Inglaterra, considerada um dos berços geográficos do Samhain. Tradicionalmente os ingleses comemoram, a 5 de novembro, o episódio fracassado da “Conspiração da Pólvora” de 1605, quando o soldado católico, Guy Fawkes, tenta explodir o Parlamento Inglês com a presença do Rei Jaime I. Tal festival é conhecido como "Bonfire Nights" (Noite das Fogueiras) ou mesmo Noite de Guy Fawkes e se espalhou também pelas colônias inglesas. Entretanto, após a Independia dos EUA, essa festividade foi abandonada. Nas últimas décadas, a proximidade da data com o Halloween vem esvaziando suas comemorações.[11]

No Brasil, o Halloween popularizou-se inicialmente com o termo “Dia das Bruxas”. Contudo, essa designação vem perdendo força, pois além de ser confundido com o Walpurgisnacht (ou Walpurgis Night, ou ainda Night of The Witches – literalmente “Noite das Bruxas”), tradição medieval europeia de origem germano-holandesa datada em 30 de abril e que não tem qualquer relação com o Halloween celta ou norte-americano, o termo original em inglês vem sendo utilizado de maneira corrente nas últimas décadas com a expansão da mídia de massa  e das redes sociais e dos próprios cursos de inglês no país quem vem organizando festas temáticas com a cultura dos países anglófonos mantendo o termo original.


Márcio de Paiva Delgado
Professor de História do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais
31/10/2016





[1] http://www.etymonline.com/index.php?term=Halloween&allowed_in_frame=0
[2] http://www.worldwidewords.org/weirdwords/ww-nut1.htm
[3] http://www.randomhistory.com/2008/09/01_halloween.html
[4] http://www.churchyear.net/allsouls.html
[5] http://www.medievalhistories.com/saints-and-souls-and-halloween/
[6] http://www.etymonline.com/
[7] http://www.nytimes.com/2016/10/28/style/halloween-love-romance-history.html
[8] http://www.iskullhalloween.com/hist_article.html
[9] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_origem_halloween_rb
[10] http://www.iskullhalloween.com/hist_article.html
[11] http://www.smithsonianmag.com/history/how-halloween-has-taken-over-england-180953211/?no-ist

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Contos de Terror e/ou Humor Negro - Operação Somália

15 de janeiro de 1993, 10:27 pm. 

O telefone toca na delegacia de El Passo, México. Uma mulher desesperada grita por socorro não dizendo coisa com coisa. O atendente tenta acalmá-la:
_ Peraí dona... A senhora encontrou o que ?!?
A mulher gritava, escalafobeticamente, que havia um corpo em seu quintal e ele estava seco como um maracujá de gaveta.

Algumas horas depois, já na casa da mulher, os policiais mexicanos investigavam a cena do crime. O corpo estava realmente seco, parecia com os famintos somalis. O investigador Sanchez, perito em crimes sem solução (pois nunca resolveu nenhum), constatou que não haviam pelos na vítima. Várias pessoas pensaram de que era um doente terminal de câncer em tratamento de quimioterapia que acabara de se cometer algum tipo de suicídio bizarro. Mas Sanchez, perspicaz, discordava. Ele, desde o início, acreditava em um assassino serial, apesar deste ser o primeiro corpo encontrado com estas características. 

30 de janeiro do mesmo ano, 15:32 pm.
Como nenhum corpo mais foi encontrado, Sanchez já estava sendo ridicularizado na Delegacia por constatar brilhantemente que o caso Somália (como foi batizado pelo próprio Sanchez ) se tratava de um serial killer de apenas uma morte.

Em meio as risadas e zombarias, o telefone toca. Sanchez, sentindo algum pressentimento, corre para atender a chamada. Mais um corpo é encontrado, desta vez em um bosque afastado da cidade. O departamento inteiro se cala quando Sanchez revela a todos a "boa nova". Ao sair, faz aquele gesto característico com o dedo médio em riste apontando para todos na delegacia.

Desta vez o corpo era feminino, estava igualmente seco e sem pelos, inclusive nos órgãos íntimos. Após exaustiva investigação Sanchez encontra o que ele acreditava ser a primeira pista. Na pele da infeliz mulher, encontrou resquícios de cola plástica. Mais uma vez foi motivo de chacota. Indignado, Sanchez alega que vai resolver e grita zagalísticamente:
_Vocês vão ter que me engolir!
Nas semanas seguintes, a mente do pobre investigador trabalha freneticamente, mas ele não encontra solução . Um pouco de cola na pele da mulher era a sua única pista. O tempo corria e nada de novo acontecia. Nem crime, nem novas pistas. 

15 de janeiro de 1998, 11:35 pm. 

Cinco anos depois do início das investigações, para desespero de Sanchez, o caso  (a essa altura arquivado) ainda não fora resolvido e o velho lobo investigador foi transferido para algum setor burocrático por pura incompetência. Ridicularizado e sem promoção na Polícia, vivia bêbado e morava numa casa que parecia um barraco. Perambulava feito louco no bosque onde a última vítima foi encontrada procurando pistas em vão.

Numa dessas insanas caminhadas desesperadas pela madrugada, Sanchez avista num vulto nas árvores. Meio bêbado, corre para avaliar o que era. Com seu faro de detetive, percebe pegadas frescas no chão. Se abaixa para ver melhor e subitamente é atingido fortemente na nuca. Tudo se apaga.

Horas depois, Sanchez se vê nu coberto por incontáveis adesivos verdes e pendurado no teto de um porão de alguma casa abandonada no velho bosque. Apavorado e sem ter como reagir, o velho investigador percebe que sua hora chegou. Uma figura estranha entra no salão. Ele é grande e obeso, se move vagarosamente em direção a Sanchez. Rindo, o ser diametral começa a falar enquanto transpira desagradavelmente:
_ Então você é o sujeito que estava atrás de mim? Humm ha ha ha ha ha....!
Em seguida, a rolha da poço infernal sai do aposento e não volta mais.

Sanchez, cada vez mais sofrendo com a fome e sede,  descobre que aquelas centenas adesivos são na verdade Dermo Paches, aqueles adesivos para emagrecer vendidos pelas redes de TV do mundo... Ele estava, lentamente, sendo consumido pela química misteriosa e bizarra dos adesivos para emagrecimento. Apesar de saber que o fim está próximo, Sanchez sente um leve alívio e conforto.

Finalmente Sanchez, o detetive obstinado, solucionou um caso.
Mas quem irá parabenizá-lo? 



Wazigo
Conto originalmente escrito em 1997.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Terror e Morte - Casos "Verídicos" - Gatos Escaldados


Na Carolina do Norte (Estados Unidos da América), o pacato funcionário público Joseph Hapler foi vítima de um belo "chute no saco" do destino.

Numa noite fria e chuvosa, o bondoso Joseph levou dois gatos de rua famintos para o seio de seu lar. Molhados e agitados, os bichanos, no meio de sua cólera e loucura habitual entre criaturas acostumadas a conversar com Satanás, encostaram num fio desencapado do velho sobrado e provocaram um curto circuito.

Com isso, seus pelos pegaram fogo, causando pânicos nos felinos. Estes correram ensandecidamente pelos cômodos da casa, enquanto emitiam seus miados desesperados, e começaram um incêndio que consumiu a residência e o pobre Joseph que dormia em seu quarto, no segundo andar.

Os dois gatos escaldados fugiram e nunca mais foram vistos.


Essa história foi noticiada no Jornal "O GLOBO" em 12 de fevereiro de 1948.
Postado na Necrose pela primeira vez em 1998.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Contos de Terror e/ou Humor Negro - O Mosteiro de Satanás


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1952, quinta-feira, 23 de dezembro.

Leonel sai de casa para passar o natal com a família no Rio de Janeiro. Nas estradas mineiras chovia como ele nunca tinha visto antes. Sozinho no carro, Leonel sentiu um calafrio como se estivesse prestes a morrer. Na mesma hora parou o carro no acostamento e começou a sentir febre e a suar frio. Na estrada não passava um veículo e a chuva havia aumentado. Quase cego com a tempestade, Leonel avista uma luminosidade não muito longe de onde parara carro. Caminhando com dificuldade, o pobre homem chega até o portão do que parecia ser um mosteiro franciscano, parcialmente encoberto pela vegetação da Serra de Petrópolis. Naquele momento, sequer chegou a pensar que apesar de conhecer bastante a estrada, nunca havia reparado naquela construção que parecia ser mais antiga que a própria estrada. Ao bater na porta, manuseando pesadas aldravas, gritou por ajuda mas até desmaiar.

Sem qualquer noção de tempo, Leonel finalmente acorda com muita dor de cabeça em um quarto escuro, frio e úmido. Ele estava deitado numa cama simples e pela janela podia ver que a chuva não havia reduzido. Quando tentou levantar-se da cama a porta se abre e um homem alto vestido de monge entra no quarto.
_ Você deve deixar o mosteiro imediatamente - O homem fala com uma voz solene e soturna.
_ Estou doente. Não podem me mandar embora deste jeito, por favor deixe-me ficar. - Agonizou Leonel, quase chorando.

O monge não disse mais nada e se retirou do aposento. Preocupado em ter que ir embora, Leonel se levanta e sai do quarto sorrateiramente. O lugar mais parecia um calabouço medieval. O coitado não sabia o que fazer. Por instinto, Leonel  desce as escadas para o que parecia ser um porão, ou melhor, uma masmorra, pois era possível ver nichos nas paredes fechados por grades.

De repente uma voz, que parece vir de uma das celas, o chama pelo nome. Alarmado e curioso, Leonel se aproxima da grade e percebe que esta se encontra trancada com um pesado cadeado. Apesar da pouca luz, Leonel consegue ver que através da pequena grade um homem magro de cavanhaque se dirige a ele.
_ Amigo, você precisa me ajudar. Esses monges me prenderam aqui e me torturam quase diariamente. E eles farão isso com você também se não fugirmos logo. Por fa..."
Antes do sujeito concluir a frase, o mesmo monge de antes, se interpõe entre Leonel e a grade e  grita alto com ele:
_ Saia já daí!!! - Agarrando-o pelo braço, o monge apresentando uma força impressionante arrasta o enfermo rapaz escada acima enquanto este consegue ver o braço e a mão do prisioneiro projetados para fora da grande numa tentativa desesperada de alcança-lo. O pobre Leonel não tinha qualquer força para reagir e assim foi levado facilmente.

Agora, levado para uma sala gigantesca repleta de monges, ao ser deixado no centro e ajoelhado ao chão, Leonel se vê como um réu sendo julgado pelos sinistros monges que o circundam de maneira solene.O que parecia ser o líder daquela infame versão da bondosa ordem franciscana, falou:
_ Rapaz, você deve ir embora imediatamente. Foi um erro nosso tê-lo deixado entrar aqui. Sabemos do seu estado de saúde mas não podemos deixá-lo ficar.

Leonel mal ouviu o homem e desmaiou novamente. Horas depois, o infeliz viajante acorda mais uma vez, desta vez na masmorra. Mas por sorte, a porta que estava trancada com o mesmo tipo de cadeado que vira anteriormente, estava presa a uma parede tão antiga e danificada pela infiltração de séculos que se solta facilmente das dobradiças assim que Leonel projeta seu peso na grande ao tentar abrir a porta da cela.

Sem vigília, Leonel consegue chegar até a cela do velho prisioneiro, talvez para tentar o mesmo artifício. Mal se aproxima da cela, Leonel é surpreendido com o sujeito na pequena grade pedindo ajuda novamente.
_ Por favor, me tire daqui! Eles irão nos torturar! Eles são de uma seita maligna. São adoradores de Satanás!

A ver que esta grade está fortemente presa a parede e tremendo de pânico, Leonel chega ao que parece um pequeno depósito no fundo da masmorra em busca de uma ferramenta ou algo capaz de abrir a cela e salvar o pobre velho.

Sua busca dá resultados e minutos depois Leonel retorna triunfante com um imenso pé de cabra. Com um pouco de esforço, a porta é finalmente arrombada. O sujeito magro sai correndo da cela, rindo como se uma piada hilária tivesse acabado de declamada por um talentoso bufão. Sem saber do que se tratava e imaginando que isso poderia ser reflexo da loucura que crescera no velho depois de décadas de cativeiro, Leonel corre também pelos corredores da masmorra até dar de cara com um imenso monge que aparentava ter quase dois metros de altura.

_ O que você acaba de fazer, maldito?! - Rugiu o monge que Leonel ouvira do velho ser um Adorador do Infame Anjo Caído.
_ Me solte! Me solte seu filho de Satanás! - Gritava Leonel tentando se soltar das mãos  do monge que o prendiam segurando-lhes os ombros.

Com um olhar mais de temor do que de raiva e com uma voz quase beirando o desespero, o homem alto encara o pobre Leonel e diz:
_ Você não sabe o que fez... Sua vida está condenada! Você acaba de libertar o próprio Satanás e ele fará de você o seu servo predileto. Sua alma será dele! 

Ao ouvir tais palavras e sentindo no fundo de sua alma que estas eram verdadeiras, Leonel emite um terrível grito de pavor... um último grito de pavor, pois morrera naquele último suspiro de sua alma, que imediatamente começa a descer para as profundezas da danação eterna.

 
Wazigo
Conto escrito em 1998. Revisto em 2014.