sexta-feira, 4 de novembro de 2016

História do Halloween




Todos os anos, na noite do dia 31 de outubro, desde meados do século XIX, é comemorado nos Estados Unidos a festa intitulada “Halloween”, que em virtude da globalização e seus bens culturais envolvidos (cinema, TV, música, jogos, quadrinhos, internet e afins), fica cada vez mais popularizada pelo mundo. Objeto de debates, críticas e até discursos religiosos inflamados, elementos simbólicos desta festa vêm sendo adotados em várias partes do mundo num processo perfeitamente normal de assimilação e ressignificação cultural, algo que sequer é recente, pois a própria festa norte-americana é um exemplo disso. Esse texto, sem qualquer rigor acadêmico, é uma tentativa de compilar um pouco dos complexos e ricos elementos culturais e históricos que compõem o que podemos chamar de “História do Halloween”.


Uma primeira pista seria entender a origem da expressão “Halloween”. Mas o que pode parecer um bom – e simples - começo, na verdade explica apenas um momento da atual nomeação dessa celebração e não a sua real origem.

A maioria dos estudiosos em etimologia acreditam que “Halloween” seja uma abreviação da expressão escocesa "Hallow-e'en" (posteriormente All Hallows' Eve) datada do século XVI. Em língua inglesa, essa contração significa literalmente “Véspera de Todos os Santos” ("Hallowed" em Inglês arcaico significa "santo", "e'en" ou “even” significam "noite anterior" ou simplesmente, “véspera”). O primeiro registro do termo "Halloween" é de cerca de 1724[1], o que demonstra que o nome atual da festa tem origem cristã, pois o “Dia de Todos os Santos” faz parte do calendário litúrgico católico. Contudo, sabe-se que as celebrações que originaram essa festa junto aos povos de língua inglesa são bem anteriores ao cristianismo, sendo sua origem encontrada nas Ilhas Britânicas em cerca do século VII a.C, com os Celtas e Bretões.

Mas como uma celebração de origem pagã tem ligações tão próximas com uma data de origem cristã? Para entender essa junção é necessário saber os conceitos de sincretismo e assimilação cultural.

Sincretismo é a assimilação de diversos elementos de sistemas de doutrinas diferentes para a geração de novos significados, sejam de caráter filosófico, cultural ou religioso. Esse processo pode ser natural, mas também pode ser feito através de relações de forças, onde uma doutrina pode se apropriar deliberadamente de outra para que ao final a primeira saia fortalecida e a outra seja superada ou até mesmo abandonada. No caso da religião, isso aconteceu de maneira bastante intensa na Europa Medieval, quando a Igreja Católica, em processo de cristianização do continente, absorveu e adaptou elementos de diversas religiões pagãs, moldando-as afim de facilitar e acelerar o processo de catequização desses povos. Praticamente todas as grandes datas do calendário cristão apresentam-se como exemplos de sincretismo e assimilação cultural. Do Natal à Pascoa, passando pelas Festas Juninas e Julinas, o Halloween também é uma delas.


A Origem Pagã

Os Celtas tinham um calendário (Roda do Ano) dividido em 8 “Sabbaths”, comemorados em festivais periódicos tendo como referência os solstícios e equinócios. Destes, o Samhain marca o Ano Novo Celta, o que na prática significa dizer que é o final do período de colheita e o início do “darker half” – a metade escura, pois o calendário celta só designava duas estações do ano: “luz” e “trevas”. Samhain significa literalmente “fim do verão”. O seu oposto, Beltane, significa em gaélico “fogo ardente”, que para os celtas marca o início do verão.



No hemisfério norte, com o seu clima temperado, o plantio geralmente ocorre na primavera seguida com a colheita no final do verão. Os dias vão ficando mais curtos e frios no outono até culminar no inverno. É o período de resguardo, onde as famílias saem pouco de suas casas ou se recolhem cedo, fugindo do frio e da escuridão. O Samhain é um tipo de festival agrário bastante comum em culturas primitivas deste tipo. Por marcar o final da colheita, indica o início de um período de pouca comida, pois com o inverno que se avizinha, a produtividade despenca e até a caça de animais e a coleta de frutos ficam escassas. É um período em que os povos primitivos deveriam se preparar ao estocar comida, recolher seus rebanhos em estábulos e buscar abrigo contra a severidade do clima e até mesmo de saques daqueles que não se prepararam para o mesmo.


 Grupos de preservação histórica e folclórica nas ilhas britânicas atualmente tentam resgatar parte do legado celta através de eventos que buscar reencenar as celebrações do Samhain original.

Comum também em religiões politeístas primitivas, era a associação dos mortos e dos espíritos com a proteção das comunidades. Aquelas que tratavam ou sabiam se relacionar com as almas dos falecidos seriam protegidas e guiadas por eles. Mas os povos que negligenciarem os espíritos que vagavam pelo mundo terreno, sofreriam as consequências. Por isso era natural que em momentos de passagens de um período de fartura para um de carência de víveres, os espíritos fossem envolvidos nas celebrações, ou para agrada-los ou para afasta-los. As festas agrícolas geralmente eram um período de “permeabilidade” sobrenatural entre os dois planos: espíritos e homens vagando no mesmo mundo, ora no dos vivos, ora no dos mortos.

A utilização de totens, máscaras, carrancas, talismãs e amuletos bizarros para afastar maus espíritos são encontrados em diversas culturas. Os celtas usavam máscaras assustadoras (feitas de galhos, folhas e peles de animais) e lanternas – feitas de nabos – para afastar maus espíritos, enquanto faziam oferendas de alimentos para as almas errantes de seus parentes mortos, para lhes dar um pouco de paz. A utilização de imensas fogueiras (as “hallowe’en fires” os “fogos de hallowe’en”) no alto de colinas e morros, para guiar e ou afastar espíritos e se comunicar com os Deuses pagãos, geralmente feitas por sacerdotes druidas, também eram especialmente utilizadas durante o Samhain. 


 Lanternas irlandesas para o Halloween feitas de nabo, datadas do começo do século XIX.
Quando a tradição chegou aos EUA com os imigrantes, os nabos deram lugar às abóboras.


Outra característica comum na maioria das religiões pagãs era a capacidade de adivinhar e prever situações. Na cena do Samhain Celta, também chamado de “Dia dos Mortos” pelos Bretões, a presença de espíritos facilitaria todo o processo de adivinhações, pois os dois mundos, o espiritual e o terreno, estavam mais unidos do que nunca. Os irlandeses e escoceses ainda mantém o hábito de comer pães chamados “barmbracks” no Samhain, cujo interior é preenchido com objetos, nozes ou frutas secas, que indicariam a destino da pessoa, uma espécie de "biscoito da sorte". Atualmente, em alguns locais do Norte da Grã-Bretanha, o Halloween é conhecido por a “Noite de Quebrar a Noz” (Nut Crack Night)[2].


 O "Barmbrack" irlandês é um dos símbolos principais do Halloween naquele país. Geralmente recheado com objetos afim de prever a sorte das pessoas. No caso aqui exemplificado, a pessoa que pegar um pedaço com o anel irá se casar no ano seguinte.


Com a invasão Romana na Grã-Bretanha no século I a.C, a religião druida passou a ser combatida enquanto a religião do conquistador introduzia e assimilava novos elementos culturais. Um exemplo foi a assimilação da festa em homenagem à Romana Pomona[3], Deusa das árvores e jardins frutíferos e que tinha sua comemoração tradicionalmente realizada em meados de agosto do calendário juliano, dentro das festividades maiores da Consuália, que em Roma fechava o período da colheita. 



 Essa Deusa, cujo símbolo era uma maçã, em terras britânicas, passou a ser festejada no fim do verão, ou seja, no Samhain, por esse ser o final da colheita daquela região. O chamado “Apple bobbing”, tradicional competição que consiste em pegar maçãs de uma bacia cheia d’água usando somente a boca feita durante o Halloween, talvez seja uma herança dessa união. Em alguns lugares, como o Canadá, a expressão “Snap-Apple night” é sinônimo de Halloween. 



Um dos jogos mais tradicionais do Halloween é o "apple bobbing", cuja origem, segundo alguns estudiosos, estaria nas festas romanas à Deusa pagã Pomona, adaptadas ao Samhain durante a dominação de Roma na antiga província da Bretanha, atual Inglaterra e País de Gales.



A Assimilação Cristã

Apesar do avanço do cristianismo nos primeiros séculos da Era Cristã na Europa, as religiões pagãs ainda perduraram, em especial na Grã-Bretanha. Mesmo com a retirada dos romanos no início do século V d.C., a religião druida ainda resistia e o Samhain continuava a ser comemorado, com suas fogueiras, máscaras, oferendas de comida e suas lanternas de nabos, sobretudo em regiões como Irlanda, País de Gales e Sul da Inglaterra, próximas a Cornuália. Mas o avanço da Igreja Católica continuou e iniciou o processo de assimilação da festa da colheita e dos mortos pagãos em suas festas cristãs.


Um dos festivais pagãos da Antiga Roma mais importantes era o da Lemúria. Tratava-se de uma cerimônia doméstica de purificação das almas que buscava acalmar e afastar as lêmures e as larvaes, espíritos maléficos de antepassados que retornavam às casas que antes haviam habitado. Além de rezas e rituais caseiros, as famílias depositavam leite e bolos nos túmulos dos falecidos para que estes não as importunassem nesses dias. Homenagear os mortos é algo comum em praticamente todas as religiões, como o judaísmo, e não seria diferente com o cristianismo, pois encontram-se ecos dessa prática desde o catolicismo primitivo, o que pode ser comprovado por inscrições nas catacumbas romanas[4]. No início do século VII d.C., o Papa Bonifácio IV converteu o Panteon, antigo templo Romano em homenagem aos Deuses, em uma Igreja em homenagem à “Santa Maria” e aos “Santos Mártires”. A data, 13 de maio de 609 d.C., passou a ser aquela onde se comemorava os mártires da Igreja Católica e os mortos esquecidos.  Não por acaso a Lemúria era celebrada nos dias 9, 11 e 13 de maio do Calendário Juliano.

Contudo, nas regiões da Grã-Bretanha, as festividades em homenagem aos mortos continuavam sendo celebradas nas datas do Samhain, que adaptado ao calendário cristão, era comemorado entre os dias 31 de outubro e 1 de novembro. Com o objetivo de que a festa pagã fosse suprimida e recebesse um novo significado cristão, o Papa Gregório III (731-741), mudou a data de comemoração dos “santos mártires” para 1 de novembro, ao dedicar uma capela na Basílica de São Pedro para "todos os santos". Desde então, a Igreja celebra a solenidade litúrgica conhecida como Dia de Todos os Santos neste dia, espalhando-se progressivamente no Império de Carlos Magno, até que o Festum Omnium Sanctorum se tornou obrigatório no Reino dos Francos durante o Reinado de Luís, o Pio e do Papado de Gregório IV (790-844) em 834. Com a fixação do “Dia de Todos os Santos”, a vigília dessa comemoração, ou seja, o dia 31 de outubro, passou a ser chamado de “Véspera de Todos os Santos”, o que no inglês antigo, conforme já dito anteriormente, é “All Hallows' Eve”, que posteriormente deu origem a expressão “Halloween”.


 O Para Gregorio III foi o responsável por fazer com que a vigília para o "Dia de Todos os Santos" coincidisse com o Samhain. O objetivo era associar a festa pagã com a festa cristã e assim facilitar o processo de catequização do cristianismo e gradativo abandono da antiga religião.


A crença católica no Purgatório, fundamentada no Segundo Concílio de Lyon em 1274, ajudou a fundamentar uma outra tradição bastante emblemática da festa de Halloween moderna. Desde o século IX, em algumas regiões da Europa cristã, principalmente nas áreas de língua inglesa, era comum no “Dia de Todos os Santos” as famílias colocarem bolos doces ou pequenos pães nas portas das casas em oferenda aos membros das congregações cristãs que, munidos de lanternas com velas representando almas presas no purgatório, orassem para os defuntos destas famílias. Eram os chamados “soul cakes” (bolos da alma). Essa prática de deixar alimentos para que fossem feitas orações para os mortos aos poucos foi sendo transformada e crianças e mendigos também passaram a oferecer tais orações a troca dos bolinhos doces. Essa tradição recebeu o nome de Souling. Em Portugal, a partir de 1 de novembro de 1756, de forma espontânea, sob os efeitos da fome provocada em consequência do famoso terremoto em Lisboa que havia destruído a cidade no ano anterior, nasce a prática que consistia em fazer uma esmola de pão, por alma dos mortos de cada família. Durante esse “Peditório” ritual, as crianças saíam à rua em grupos para pedir o “Pão-por-Deus” de porta em porta, recitando versos e recebiam como oferenda pães, bolos, romãs e frutos secos. Em algumas aldeias chama-se a este dia o “Dia dos Bolinhos”. Muitos estudiosos acreditam que a origem do “trick or treat” (doces ou travessuras) das atuais festas de Halloween tenham sua origem nos Soulings e que o Pão-de-Deus de Portugal seria uma de suas primeiras ressignificações.


 O "Pão-por-Deus", tradição portuguesa comemorada no dia 1 de novembro, é considerada uma ressignificação do Souling, parte das práticas relacionadas ao Samhain medieval. Fotohttp://eb1saopaulo.blogspot.com.br/2013/11/dia-do-pao-por-deus.html 



Enquanto o Samhain ainda era celebrado de maneira velada pelos nãos cristãos nas regiões de língua inglesa, durante o primeiro milênio de cristianismo europeu não havia uma institucionalização para as celebrações em homenagens aos mortos. Encontram-se alguns registros do século VII d.C. de celebrações em honra aos mortos em abadias beneditinas francesas e espanholas uma semana posterior ao Pentecostes. Nos finais do século X e início do século XI, o Abade beneditino Odilon de Cluny, França, (posteriormente Santo Odilon), determinou, em 998, que todos os mosteiros de sua ordem fizessem orações em nome dos “mortos esquecidos” e das “almas do purgatório” no dia 2 de novembro, um dia após do “Dia de Todos os Santos”. Algumas fontes dizem que tal prática nos mosteiros beneditinos só foi totalmente efetivada entre 1024 e 1033[5]. De qualquer forma, a data do “Dia dos Mortos” ou “Dia dos Fiéis Defuntos” (Commemoratio omnium Fidelium Defunctorum) só seria oficializada pela Igreja Católica no século XIII.  As três datas, o dia 31 de outubro (Véspera do Dia de Todos os Santos), o dia 1 de novembro (Dia de Todos os Santos) e o dia 2 de novembro (Dia dos Finados) forma o chamado "Allhallowtide", termo criado em 1471 para designar as Festas dos Mártires, dos Santos e das Almas.



O Souling foi uma prática de origem medieval que consistia em oferecer bolinhos à crianças e mendigos para que estes rezassem para as almas dos mortos das famílias no Dia de Todos os Santos, coincidindo com as comemorações do Halloween. Com a criação do Dia dos Finados, a prática se entendeu pelos três dias do "Allhallowtide".



O Halloween nos Estados Unidos

Na segunda metade do século XIX, os Estados Unidos receberam uma enorme onda de imigrantes irlandeses que fugiram da “Grande Fome” ou “Fome das Batatas” (1845-1849) e de escoceses. Acredita-se que foi a chegada dessa leva de imigrantes que introduziu a celebração do Halloween em terras norte-americanas. 


O Halloween na virada do século XIX para o XX eram uma festa de caráter familiar, onde adultos e crianças confeccionavam suas próprias fantasias (clique para ampliar). Na maioria das vezes, o resultado era muito mais assustador e perturbador do que as futuras fantasias fabricadas e vendidas em lojas de departamento nas década seguintes.


A região da Costa Leste, já bastante rica em folclore sobrenatural em virtude da colonização puritana e o histórico de “caça às Bruxas” dos séculos anteriores e também contando com uma tradição literária romântica e gótica já bastante desenvolvida (com célebres nomes como Washington Irving, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville e Edgar Alan Poe), ofereceu terreno fértil para as máscaras fantasmagóricas e entidades (como o “Bogeyman” – uma espécie de Bicho-Papão) das celebrações do Halloween cristão irlandês e escocês, que se manteve relativamente vivo mesmo com a repressão católica e protestante por toda a Idade Média e Moderna. Alguns historiadores identificam um aumento de histórias de terror nas comunidades agrárias dos EUA após a Guerra Civil Americana. Argumentam que isso foi provocado pela grande quantidade de mortos sem identificação – se sem sepultamento adequado – e desaparecidos, o que povoou o imaginário popular de um “retorno” – inclusive sobrenatural - desses combatentes. Outro fator de popularidade para a cultura do Halloween na segunda metade do século XIX, além do crescimento da literatura gótica, sobretudo nos países de língua inglesa, foi o aparecimento dos chamados “Penny Dreadful”. Publicações de baixa qualidade material e literária, comprados a preços muito baixos (um “penny”) nas ruas, com a temática de terror, mistério e o sobrenatural.


A inserção de elementos folclóricos e históricos da Costa Leste dos EUA, somada à forte
literatura gótica presente na região, foi a responsável pela entrada de Bruxas e criaturas sobrenaturais nas comemorações do Halloween.


Foi também nesse contexto que se popularizou um dos símbolos mais conhecidos do Halloween, a lanterna com feições humanas fantasmagóricas que, sendo feita agora nos EUA, passa a ser confeccionada com abóboras ao invés de nabos. Esse personagem é tradicionalmente conhecido com o “Jack Miserável” ou “Jack-O’-Lantern”. A origem do nome vem de uma lenda irlandesa do século XVII, provavelmente na década de 1660, que é quando o termo é registrado pela primeira vez[6]Há algumas versões da mesma lenda, mas todas contam a história de Stingy Jack, um notório malandro que vivia aplicando golpes nos outros, sendo que uma das vítimas de suas peças foi o próprio Diabo. Após sua morte, sendo recusado tanto no Céu quanto no Inferno, Jack recebeu do Diabo uma lanterna feita de nabo para iluminar os caminhos que sua alma penada deveria vagar pelo mundo, passando a ser conhecido como o “Jack da Lanterna”.


Portanto, foi só a partir de meados do século XIX que os espíritos de caráter familiar e os nabos deram espaço para as bruxas, entidades, demônios, caveiras e abóboras (maiores que o nabo, mais macias e prontas para a colheita na mesma época) passaram a fazer parte do Halloween.


Na versão original da lenda, Stingy Jack teria recebido do Diabo uma lanterna de nabo para guiar seus caminhos pelo mundo após sua morte. Nos EUA a lenda foi inserida na cena do Halloween, transformando a própria lanterna, desta vez feita de abóbora, no personagem Jack O' Lantern.


Com o século XX, algumas das tradições associadas ao Halloween perderam significado, e a festividade sofreu algumas tentativas de “amenizar” suas práticas com o resgate de brincadeiras envolvendo jogos de adivinhações entre familiares, amigos e casais. Em algum momento, a festa chegava a ter ares românticos[7]. Jogos como o Snap-Apple (morder uma maça presa a um barbante), o Apple bobbing e os ”bolinhos de nozes” que previam casamentos (ambos já citados no texto) eram tão populares quanto as lanternas e máscaras assustadoras.


O Halloween nos EUA, herdando tradições celtas e romanas, também é marcado por brincadeiras e jogos de adivinhações e previsões do futuro (clique para ampliar), o que é perfeitamente natural em situações comemorativas que fazem referência ao sobrenatural.


A festa continuou a crescer e nas primeiras décadas do século XX passou a sofrer forte repressão de algumas cidades, como Los Angeles e Chicago, por conta do vandalismo da noite de “travessuras” e excessos (sem a presença de crianças). Algumas cidades chegaram a proibir qualquer festividade e alguns jornais passaram a chamar o Halloween de “Noite Infernal” em virtude da destruição e baderna provocadas por jovens e adultos desempregados e frustrados em catarse coletiva no contexto da Grande Depressão Americana. 

Mas apesar desse período de violência e repressão, uma verdadeira indústria foi criada em torno do Halloween[8]. O capitalismo estava em franca expansão e os EUA entravam no entreguerras como a maior potência industrial do mundo e com uma crescente classe média urbana ávida por consumo e diversão. Empresas passaram a produzir doces, fantasias, cartões postais e decoração voltadas para o Halloween em massa, sendo disponíveis nas imensas lojas de departamentos das grandes cidades americanas. O que até então eram festas familiares e com artigos improvisados, passa a ser um colossal negócio com altas taxas de lucratividade.



Segundo o historiador Eric Hobsbawn, o capitalismo gera a sua própria demanda. A popularização do Halloween está diretamente ligada ao desenvolvimento de um imenso empreendimento comercial. Fabricantes e lojistas nos EUA passaram a oferecer fantasias, decoração e "kits" para o Halloween, popularizando ainda mais  festa na crescente sociedade de consumo.  


O crescimento da indústria de comunicação em massa com o cinema, rádio e publicações impressas, transformaram a estética do Halloween e seus personagens em um negócio bastante lucrativo. Mais uma vez, publicações baratas de terror e mistério, agora conhecidas nos EUA como Pulps, como a “Weird Tales” (1923) e a “Horror Stories” (1935), popularizaram-se nas décadas de 20 e 30, formando uma geração de leitores admiradores dessas criaturas horrendas e ao mesmo tempo carismáticas. Foram lançados também livros em forma de cartilhas com sugestões de como organizar uma Festa de Halloween com decorações, fantasias, brincadeiras e quitutes, os chamados “Bogies Boooks” (1925). O célebre episódio de Orson Wells lendo trechos do livro “Guerra dos Mundos” de H. G. Wells pelo rádio no dia 30 de outubro de 1938, o que gerou pânico e distúrbios por toda costa oeste, foi justificado como sendo uma “pegadinha” de Halloween[9].

O cinema e a TV norte-americana, seguindo uma vertente temática iniciada pelo expressionismo alemão, popularizou personagens literários clássicos e folclóricos em suas produções, como vampiros, a criatura de Frankenstein, lobisomens, zumbis e afins. Era questão de tempo que esses personagens fossem usados nas decorações e fantasias de Halloween.

Mais tarde, nos anos 60, revistas quadrinhos como a “Creepy” (1954) e programas de TV como a “Família Adams” (inspirado numa tirinha diária em jornais publicada desde 1938) ajudaram ainda mais popularizar a “estética de Halloween” junto ao público infantil.

A tradição de crianças fantasiadas pelas ruas batendo de porta em porta pedindo doces é mais recente do que se pensa. Não há registros dessa prática antes da década de 30 – suborno pare evitar vandalismos – e só a partir da década de 50, o “Trick-or-Treat” passa a ser realmente parte do Halloween quando uma campanha de caridade organizada pela UNICEF (Trick-or-Treat for UNICEF) para angariar donativos, acompanhada de artigos em jornais e revistas e programas de rádio, o popularizam junto a classe média norte-americana em seus subúrbios abastados da geração do pós-guerra. Com o fim da campanha filantrópica, a prática continuou, mas o dinheiro foi substituído por doces.[10]





A popularização mundial do Halloween

Atualmente, os feriados e festivais nacionais raramente fazem referência à elementos agrários como colheitas e plantios, mas os países cristãos continuam a render feriados relativos aos mortos e aos santos. No Brasil e em outros países católicos, o “Dia de Finados”, em 2 de novembro, é um feriado marcado pela constrição e reflexão para com os entes queridos falecidos. No México e na América Central, o “Día de Muertos”, celebrado atualmente entre o dia 1 e 2 de novembro, é uma festa popular de rua com origens nas antigas civilizações mesoamericanas e é marcada pela alegria e pela presença de desfiles de bonecos e carros alegóricos em formas de caveira, além de muita comida e bebida.

Com o desenvolvimento da cultura de massas com os meios de comunicação e de bens culturais de consumo intenso como TV, cinema, desenhos animados, quadrinhos, vídeo games, jogos de tabuleiro e música, a temática do Halloween, que a despeito de ser “assustadora”, transformou-se numa festa social, que envolveria todas as idades e em diversos países, mesmo aqueles de não língua inglesa.   Foi uma questão de tempo que o próprio processo de globalização a transformasse em referência cultural com status de “Cultura POP”.


Cinema, quadrinhos, TV, jogos, literatura, música e afins (clique para ampliar). Tal como aconteceu com Natal e a Páscoa em escala global, o Halloween foi sendo transformado em fenômeno multimídia para o consumo de massas, sendo que atualmente não apresenta praticamente nenhum significado religioso, como ainda acontece com os outros feriados.

Até países de língua inglesa sofreram essa “invasão americana”, dentre eles a própria Inglaterra, considerada um dos berços geográficos do Samhain. Tradicionalmente os ingleses comemoram, a 5 de novembro, o episódio fracassado da “Conspiração da Pólvora” de 1605, quando o soldado católico, Guy Fawkes, tenta explodir o Parlamento Inglês com a presença do Rei Jaime I. Tal festival é conhecido como Bonfire Nights (Noite das Fogueiras) ou mesmo “Noite de Guy Fawkes” e se espalhou também pelas colônias inglesas. Dentre as comemorações do fracasso do atentado estavam crianças e adultos pelas ruas à noite portando tochas, mascaras, fazendo fogueiras e zombando de Guy Fawkes, enquanto pediam doces e bolos nas residências. Entretanto, após a Independia dos EUA, essa festividade foi abandonada. Nas últimas décadas, a proximidade desta data com o Halloween vem renovando essas comemorações.[11]

No Brasil, o Halloween popularizou-se inicialmente com o termo “Dia das Bruxas”. Contudo, essa designação vem perdendo força, pois além de ser confundido com o Walpurgisnacht (ou Walpurgis Night, ou ainda Night of The Witches – literalmente “Noite das Bruxas”), tradição medieval europeia de origem germano-holandesa datada em 30 de abril e que não tem qualquer relação com o Halloween celta ou norte-americano, o termo original em inglês vem sendo utilizado de maneira corrente nas últimas décadas com a expansão da mídia de massa  e das redes sociais e dos próprios cursos de inglês no país quem vem organizando festas temáticas com a cultura dos países anglófonos mantendo o termo original.


Márcio de Paiva Delgado
Professor de História do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais
31/10/2016





[1] http://www.etymonline.com/index.php?term=Halloween&allowed_in_frame=0
[2] http://www.worldwidewords.org/weirdwords/ww-nut1.htm
[3] http://www.randomhistory.com/2008/09/01_halloween.html
[4] http://www.churchyear.net/allsouls.html
[5] http://www.medievalhistories.com/saints-and-souls-and-halloween/
[6] http://www.etymonline.com/
[7] http://www.nytimes.com/2016/10/28/style/halloween-love-romance-history.html
[8] http://www.iskullhalloween.com/hist_article.html
[9] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_origem_halloween_rb
[10] http://www.iskullhalloween.com/hist_article.html
[11] http://www.smithsonianmag.com/history/how-halloween-has-taken-over-england-180953211/?no-ist

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