sábado, 28 de janeiro de 2012

Contos de Terror - O Alpinista Azul

Pode parecer pouco, mas duzentos metros se parecem com dois quilômetros quando se está sozinho escalando uma montanha traiçoeira, íngreme, com temperaturas baixíssimas e com o ar extremamente rarefeito.

Moisés estava numa situação em que não podia vacilar. Estava apenas a duas horas de subida até topo e não tinha como voltar até o acampamento antes do anoitecer. Ele sabia muito bem que seria morte na certa se fosse apanhado pela noite em pleno paredão de gelo. Só tinha uma opção: tinha que juntar todas as suas forças ao limite das cãibras e chegar até o topo, senão morreria como um peixe preso num anzol a sete mil metros de altura. Respirou fundo no tambor de oxigênio e recomeçou a subida.

As horas foram se passando e quase no final da escalada, sua máscara anti-gelo estava muito suja de neve e terra e mal se podia ver os últimos cem metros a frente com nitidez. Mas no meio da imensidão branca e imóvel, Moisés pode notar uma mancha azulada bem próximo ao pico parecida com um homem. Moisés ficou imóvel por um minuto tentando definir melhor a imagem. Sem dúvida era um homem no alto da montanha e ele usava uma roupa de alpinismo da mesma cor que a dele. Como será que não encontrou com aquele homem nos acampamentos que existiam em vários pontos da montanha? Dezenas de alpinistas vêem de todos os cantos do mundo ao Himalaia no verão para se aventurarem na montanha e ou sempre são velhos conhecidos ou ficam amigos nos acampamentos. Mas ele não lembrava de nenhum alpinista que estivesse a sua frente neste verão. Quem seria aquele homem?

Quando Moisés voltou a olhar para o topo, o homem estava andando com as mãos na cabeça de um lado para o outro sem nenhuma corda de proteção. Moisés temeu pela vida do alpinista azul que andava tão displicentemente na beirada do paredão. Aflito e temendo o pior, Moisés consegue acelerar a subida. Mas isso pareceu piorar a situação, pois o homem começou a gritar desesperadamente até acontecer uma tragédia.

Para desespero de Moisés – que não podia fazer nada para ajudar – viu o colega pisar em falso e cair deslizando pelo paredão sul da montanha. Abaixo, Moisés olhava aterrorizado a cena do alpinista rolando montanha abaixo até que o branco da neve voltasse a engolir o azul de seu traje. Era a primeira vez que via alguém morrer na sua frente e sentiu-se muito mal. O alpinista ficou gelado e sentiu um inexplicável sentimento de perda quando viu o companheiro se perder na neve. Se sentindo ainda mais cansado, teve medo de ter o mesmo final do homem e rezou um pouco pela alma do pobre infeliz antes de continuar a sua subida.

Pouco mais 30 minutos depois, o alpinista finalmente chegou até um platô mais largo a poucos metros do topo. Não comemorou. Não tirou fotos. Não sentiu nenhum sentimento bom. Só se sentiu um pouco aliviado e nada mais. Começou a tirar seus equipamentos e fez anotações no seu "diário de bordo". Tomou um pouco de soro e começou a armar o acampamento. Depois de tudo arrumado, Moisés percebeu que estava no mesmo local de onde o homem caíra. Notou inclusive algumas pegadas e uma marca forte na beirada do paredão, onde provavelmente foi que o homem escorregou na neve e caiu para a morte. Logo depois acabou de armar e fixar o acampamento no solo pedregoso (pouco mais de uma barraca e um saco de dormir especiais para a situação), bebeu café quente e dormiu quase que sem perceber.

De repente Moisés acorda exaltado, tremendo de frio. Um frio absurdo. Inexplicável. Tudo durou menos de uma fração de segundo. Antes mesmo de abrir os olhos e tirar o protetor contra luz que estava sobre o seu rosto, ele já havia buscado a resposta em seu ser para aquele frio inesperado e a mais provável fosse que a barraca havia se rasgado.

Abriu os olhos. Tirou a máscara. Moisés sentiu que algo terrível estava para acontecer, pois todo o seu acampamento havia desaparecido. Um sentimento de pânico tomou conta dele. Barraca, mochila, saco de dormir, cordas, grampos, equipamentos, diário. Tudo havia sumido. Ele estava deitado diretamente sobre as pedras a beira do precipício.

Moisés levantou assustado e ficou a andar por todos os lados sem saber o que poderia ter acontecido. Imaginou o que seria dele agora sem seu equipamento e como ele faria para voltar à civilização. Estava perdido e sozinho no teto do mundo sem nada, apenas com seu traje azul de alpinismo. Colocou as mãos na cabeça e andou de um lado para o outro em desespero, falando alto, quase gritando. Olhou para baixo na esperança de ver seu equipamento descendo pela encosta ou preço em alguma reentrância. Havia algo ali embaixo. Mas não era seu equipamento. Moisés viu algo que o deixou estupefato.

Viu um homem com equipamento de alpinismo azul parado a algumas dezenas de metros abaixo de olhando-o fixamente. Quem poderia ser? O homem logo recomeçou a subir a montanha enquanto Moisés o olhava paralisado. Mas ao invés de sentir alívio por uma possível salvação, Moisés entra em pânico. O homem que subia o paredão não lhe era totalmente estranho. De repente, em mais profundo desespero, Moisés dá um grito de horror. Em sua cólera, o alpinista azul perde o equilíbrio e escorrega em um pedaço de gelo solto na beirada do platô e começou a cair.

Abaixo, Moisés olhava aterrorizado a cena do alpinista rolando montanha abaixo até que o branco da neve voltasse a engolir o azul de seu traje...


Márcio Delgado
Conto escrito originalmente em 1998. Reescrito em 2012.

Um comentário:

  1. E você o prendeu no mito do eterno retorno, numa dobra de tempo interminável.

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