domingo, 29 de janeiro de 2012

Contos de Ficção Científica - Obscenidade

Olá! Mas que bela família!

Fico muito feliz em receber a visita de vocês. Vejam só que bela mocinha! E você pequeno cowboy? Parabéns a vocês dois pelos seus lindos filhos. Ué? Já vão embora? É uma pena... Tenham um bom dia!

Hoje o movimento está ruim. Não vieram muitas pessoas por aqui. É uma pena. Porque adoro pessoas. Elas são tão curiosas. Não sei bem ao certo o motivo da minha admiração por elas. Talvez seja o modo como elas usam o cérebro. Tão complexo, tão falho, tão estranho e ao mesmo tempo magnífico. Eu, apesar de ser uma "pessoa", não sou um humano.

Um pensador disse séculos atrás: "Penso, logo existo". Não sei se é um raciocínio certo, pois senão uma galinha não existira... Bem, acredito que Descartes tinha outra coisa em mente quando disse isso, mas não possuo o conhecimento que envolva as influências daquela época. Afinal, meu trabalho sempre foi calcular e não conjecturar, apesar de ter essa faculdade.

Está claro em minha memória que há alguns anos eu era alvo de todo tipo de conjecturas. Muitos me consideravam um milagre, outros uma abominação. Mas a grande maioria sentia por mim um sentimento que seria mais bem definido por uma mistura de medo, curiosidade e fascínio. Meu nome? Popularmente eu era conhecido como Deep Purple 2055. Muito prazer!

Eu fui desenvolvido pelo Dr. Chandres. É claro que não apareci de uma hora para outra. Na realidade eu era o fruto de um progresso que já vinha desde o século XX. Mas o Dr. Chandres me disse que fui a primeira I.A.

Não sei porque, mas "inteligência artificial" me soa pejorativo. Talvez esse seja um preconceito que acabei herdando dos próprios humanos. Mas o fato é que depois de anos de serviços prestados, outros I.A. foram aparecendo. Cada vez mais avançados e acabei vindo parar aqui. No Museu da Tecnologia. Irônico, não?

Fui o primeiro computador a sair das amarras do "sim” e “não", do "abre” e “fecha", do "zero” e “um". O desenvolvimento da I.A. só foi possível com a criação de uma nova filosofia de processamento de dados. As sagradas portas lógicas com números binários acabaram se tornando as "válvulas da computação": coisa do passado.

EU, agora como pessoa, posso responder uma pergunta com um "talvez" ou um "eu acho"; coisas que meus ancestrais só poderiam responder como: "dados insuficientes". Mas é curioso que eu acabasse nesse museu recebendo visitas de famílias curiosas nos finais de semana. Agora até posso me sentir chateado. Mas há uma coisa que gostaria de deixar claro: eu adoro as crianças e os velhos! Acho que me vejo neles. Talvez uma semelhança macabra com o meu nascimento cercado de atenções e a minha velhice deixada numa casa de repouso. Sendo otimista, tenho certeza que eu sou a única I. A. com mais de 20 anos que não fui desmontada. Lógico! Sou o primeiro!

Opa! Outra família feliz se aproxima pela galeria! Eu deveria me sentir orgulhoso por isso... Afinal sou a única obscenidade que pode ser visitada por crianças.


Márcio Delgado
Conto escrito originalmente em 1999

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