segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Contos de Ficção Científica - Sete Minutos


Um agonizante saxofone quebra a monotonia de uma estação de condutores urbanos às duas da madrugada. Tal som, que saía de algum ponto perdido na imensidão da estação, só era interrompido pelo silvo de um "condutor" com seus solitários passageiros que eventualmente passavam. Enquanto isso, Max estava sentado em um banco, ouvindo jazz e aproveitando um dos seus poucos prazeres fora do seu ambiente de trabalho.

Era uma noite típica de onde morava. A temperatura não passava dos 11º C e caía uma chuva fina que parecia que nunca acabava, molhando suas ruas praticamente desertas. Fazia um silêncio quase mórbido. Ele ia a estação quase todas as noites e ficava apenas sentado no banco e ouvindo. Nunca fora abordado por qualquer um dos parcos transeuntes. Cada um cuidava de si. Max adorava isso.

Max trabalhava como programador de uma grande empresa multinacional de telecomunicações. Era o técnico responsável por toda comunicação digital da sua cidade. Trabalhava em casa, cercado por três monitores de várias polegadas em sua bancada e ligados a um poderoso processador e mais uma infinidade de periféricos que atualmente caberiam dentro de uma lata de refrigerante. Ele não tinha exatamente uma “jornada de trabalho”. Seu equipamento fica ligado ininterruptamente e enquanto está em casa, significa que está trabalhando. Como praticamente não sai a rua a não sem em casos de extrema necessidade – ouvir música na estação toda madrugada era considerado por ele algo de extrema necessidade –, Max está o tempo todo trabalhando, mesmo quando divide sua atenção com as pizzas encomendadas, os vídeos games (ocupando apenas uma das três telas, é claro) e as suas necessidades fisiológicas básicas.

Todos os dias eram iguais, mas nessa noite acontecera algo que realmente tiraria Max de sua rotina. Uma mensagem, um texto, sem qualquer identificação, aparecera em sua tela através de editor de texto comum. Isso o deixou perplexo. Alguém estava acessando remotamente sua máquina, abrira um aplicativo e deixara uma mensagem em sua tela. Enquanto isso, seu equipamento ficara travado por cerca de 15 minutos. Max continuou calado, sem expressão facial visível, olhando para a tela, praticamente sem piscar. Perplexo, mas incapaz de demonstrar isso externamente.

Passado esse intervalo que lhe pareceu uma eternidade. Max pode "ver" o que acontecera. Seu equipamento fora invadido por alguém e durante esses minutos seu firewall (criado por ele próprio) registrou outras 10 tentativas de acesso além daquela que fora bem sucedida. E o que mais o deixou perplexo foi perceber que as outras tentativas foram bloqueadas pelo primeiro invasor!

 _Quem invadiu meu computador? Por que houve outras tentativas? Quem teria feito essas tentativas? Havia alguém rastreando o primeiro intruso? Quem eram essas pessoas? Que mensagem é essa? A mensagem...

Ele se lembrara da tal mensagem que dera origem a essa caçada de gato e rato. Max, então, leu a mensagem: "Hoje, o governo da Coalizão Ocidental declarou rendição incondicional ao Governo Sino-Soviético após o início da 3º Guerra Mundial. Ela durou exatamente sete minutos. Foi o tempo necessário para que um conjunto de vírus, agindo simultaneamente e em vários pontos espalhados pelo hemisfério ocidental, dominarem o Sistema de Defesa Ocidental e provocado a mudança no controle de todo o Sistema Bancário Ocidental. Todas as outras defesas restantes entraram em colapso durante a tarde e”. A mensagem terminara dessa maneira, abruptamente e sem conclusão.

No primeiro instante, um levantar de sobrancelhas fora a única expressão que saíra de Max, seguida de alguns segundos de meditação e finalmente um suspiro. Desligou o equipamento (era incapaz de relembrar de quando havia feito isso pela última vez) e foi para estação sem emitir um som sequer.

_Seria verdade a tal mensagem? - Indagou.

Sua vida sempre fora considerada muito normal. Estudou, formou-se e agora trabalha em casa como quase todo mundo. Quase nunca saia. Nunca vira o mar. Sequer um rio. Os únicos animais que conhecera ao vivo foram pombos, gatos, ratos e alguns insetos.

Entrara na lista de Controle de Natalidade e fora submetido a uma vasectomia aos 4 anos de idade em troca de um "incentivo" governamental oferecido aos seus pais. A morte era apenas um cliente a menos em seu banco de usuários. Nunca conhecera alguém que morrera. Na verdade tampouco se lembrava de conhecer alguém que tenha tido um filho.

_ O que o serviço de limpeza fazia com o corpo? Enterrar é que não iriam...

_O que significa aquela mensagem? Sete minutos... 3º Guerra... rendição... 3º Guerra? Então houve outras duas? Sete Minutos? Qual era a duração das guerras de antigamente?

_ O mundo esteve em guerra e ninguém ficou sabendo? A mensagem poderia ser falsa... E daí? Todas as informações importantes da humanidade estavam online e podiam ser vistas através de um monitor desde que a pessoa saiba como e onde procurar. Qualquer um, com equipamento, conhecimento e talento suficiente poderia acessar qualquer informação através de um roteador.

Muito antes de nascer, a civilização já havia optado pelos cabos, fios (cada vez mais raros hoje em dia) antenas e sensores. Ondas e impulsos mantinham tudo e todos em contato permanente. Finalmente o homem aprendera a viver em sociedade de maneira harmônica: todos em suas casas, cuidando de suas próprias vidas. Nomes familiares eram quase inúteis. Endereços eletrônicos e avatares personalizados eram mais práticos. "Max" era o suficiente. Você só precisa saber o seu número de telefone, seu email ou qualquer outra forma de identificação eletrônica pessoal. Max tinha 29 anos e não fizera nada na sua vida além do trabalho. Só conhecia o mundo pelo monitor.

_ Sete minutos?

Ele se sentia do tamanho de um pixel. Nunca soube o que era ego, mas agora parecia que a sua personalidade, ou o que quer que isso fosse, havia sido “deletada”. Sentia-se um número binário inserido numa sequência que tendia ao infinito. Ele não se sentia mais parte da humanidade. Na verdade, nunca havia parado pra pensar o que significava se considerar humano.

_ Como era o mundo antigamente? Melhor? Pior? Feliz? Triste? Pacífico? Violento? Humano?

Max não sabia. Ele não sabia de nada. Nunca soube.

Agora estava sentado no banco da estação, de madrugada, pensando naquele homem invisível que toca aquele exótico instrumento ecoando de algum ponto perdido da imensa construção. Pelo menos ainda existiam pessoas que andavam pelas ruas. Como seria viver igual aos "sem monitores"? Um sorriso apareceu em seu rosto. Estaria com inveja das pessoas das ruas?

Estava cansado do nada. Sempre achou que ficaria velho trabalhando em casa debruçado em seus programas cada vez mais elaborados, complexos e eficientes. E ao final dessa longa e pacata vida, morreria do jeito que entendia ser “feliz”. Max estava com frio, muito frio, estava cansado do frio, cansado do frio do monitor.

Ao fim da música, levantou-se do banco da estação e foi para casa. Quando lá chegou, sentou-se na frente de seus monitores... e começou nova Guerra.

Márcio Delgado
Conto originalmente escrito em 1999. Revisto em 2013.

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